sexta-feira, 1 de maio de 2015

Para o Alto e Avante: transgênicos e combate de doenças.

Quase todas as vezes que falamos em transgênicos pensamos em laboratórios de ponta, ativistas e alimentos envenenados, mas pouco se fala da contribuição dos Transgênicos na saúde pública. Nessa semana ocorreu uma pequena mudança nesse cenário: a liberação de mosquitos transgênicos em Piracicaba chamou a atenção da imprensa. A cidade de Piracicaba, São Paulo, enfrenta uma das piores epidemias de Dengue da sua história, e nem as tendas improvisadas nas praças como "hospitais de campanhas" dão conta de atender toda população com sintomas da doença. Parece que estamos perdendo a guerra contra a dengue. Mas calma, ainda temos uma esperança, botem os transgênicos na linha de frente! Para o alto e avante!
O que fazer para resolver o problema da dengue em Piracicaba? Soltar 100.00 Aedes aegypti na cidade. Isso mesmo, você não leu errado! Claro que não é o Aedes selvagem, mas sim um transgênico. O nosso caro leitor deve estar se perguntando por que gastar milhões em pesquisa com insetos transgênicos para combater a Dengue, se ele aprendeu na escola que basta virar as tampinhas no quintal e não deixar a água parada, método indiscutivelmente mais barato e prático. Bem, leitor, a resposta é simples: o método tradicional não tem se mostrado eficiente. É só dá uma olhada nas estatísticas dos mais diversos estados do Brasil para ver que ano após ano as epidemias de Dengue lotam unidades de saúde. Desde de 1920 que esse método é usado. e já que essa é uma "guerra", como as campanhas governamentais gostam de falar, vamos botar uma arma nova, desenvolvida com ciência de ponta, que custa alguns milhões, e que os ambientalistas não gostam muito. Não estou falando da Little e Fat Boy, nem do projeto Manhattan. Estou falando do projeto Oxitec, em Jacobina, na Bahia.

A abordagem genética usada para criar os mosquitos é um sistema conhecido como tetraciclina controlado ativação transcricional (ATT). O gene tTA é emendado no genoma do inseto de tal forma que a proteína produzida por ele aumenta sua atividade - um ciclo de feedback positivo. As células produzem mais e mais proteína tTA - e ao fazer, têm pouca capacidade para fazer qualquer outra proteína. Eventualmente, isso mata os insetos. Quando as larvas de machos são criadas, este processo é desligado, mantendo-os em água contendo o antibiótico tetraciclina, que inibe o processo de feedback. Quando os machos acasalam, no entanto, o gene tTA em sua prole é totalmente ativo.
Na cidade de Jacobina, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a ONG Moscamed, tentam comprovar que a liberação de mosquitos Aedes aegypti geneticamente modificados no meio ambiente reduz drasticamente o tamanho da população de transmissores da doença – diminuindo assim o número de infectados, que neste ano já chega a 1,5 milhão de pessoas, segundo o Ministério da Saúde. Desenvolvido pela empresa britânica Oxitec, que detém a patente,  Em Jacobina, levantamentos mostram que a população de transmissores da dengue em seis meses de experimento já é 50% menor, de acordo com pesquisadora da USP Margareth Capurro, coordenadora do Projeto Aedes Transgênico (PAT).

Agora vamos às críticas. Ecologistas levantam a questão do desequilíbrio ambiental que a introdução de um mosquito transgênico possa causar. Gabriel Fernandez, da CNTbio, questiona ainda que, sem um devido estudo, não se pode assegurar que essas fêmeas – que segundo ele chegam a 3% da produção – não ajudarão a formar uma segunda população, que poderá crescer mais rápido do que a silvestre e se tornar eventualmente "mais agressiva" na transmissão da dengue. Outra possível falha, afirma o membro da CTNBio, seria o não monitoramento de um possível aumento do número de mosquitos Aedes albopictus, diante da supressão do aegypti. O albopictus é vetor para várias doenças tropicais como malária e febre amarela.
Chegou a vez do pessoal da ética. Apesar da euforia, o estudo gerou a desconfiança de cientistas ligados à transgenia., que alegam que a  população de Jacobina está sendo feita de cobaia, são ratinhos de laboratório da Oxitec. Segundo eles, a população não foi devidamente informada sobre o tipo de pesquisa e afirma não haver um código de ética com detalhes sobre os procedimentos em campo, onde 4 milhões de mosquitos transgênicos são liberados no ecossistema toda semana.
Chamem os economistas. Reportagem do jornal britânico The Observer de julho do ano passado, a Oxitec estimou o custo da técnica em menos de £5 libras esterlinas por pessoa por ano. Num cálculo simples, apenas multiplicando o número pela contação atual da moeda britânia frente ao real e desconsiderando as inúmeras outras variáveis dessa conta, o projeto em uma cidade de 150 mil habitantes custaria aproximadamente R$ 3,2 milhões por ano. Se imaginarmos a quantidade de municípios de pequeno e médio porte brasileiros em que a dengue é endêmica, chega-se a pujança do mercado que se abre. Porém, vale lembrar os custos com campanhas educativas, com propagandas que enchem os bolsos dos marqueteiros  e com tendas de guerra improvisadas nas epidemias, além do ônus de trabalhadores pararem pelos sete dias de recuperação. Nos últimos cinco anos, foram 3,2 milhões de casos de dengue registrados no Brasil, com cerca de 800 mortes, todas evitáveis Isso só levando em conta o que foi documentado. Será um investimento válido?
Esse jornal é de 2002. 13 anos depois, as manchetes não tiveram grandes alterações.

A cidade de Piracicaba acha que sim. E lá vão eles, voando pelos céus, com a missão de combater a inimiga número um do Estado brasileiro (a que ponto chegamos!). Será que a liberação de 100.000 mosquitos transgênicos resolverão a epidemia na cidade paulista? Saberemos a resposta em 10 meses. Esse é o teste de fogo dos mosquitinhos trans, se falharem, pode ser o fim dessa esperança da ciência.  Para finalizar, é bom esclarecer que se esse método funcionar, ele não exclui os atuais, mas sim colabora com eles, principalmente durante as epidemias.
 Ironicamente, a nossa arma surpresa nessa guerra é o próprio inimigo geneticamente modificado. A possível solução para Piracicaba é um pássaro? É um avião? Não, são os transgênicos! Para o alto, e avante, Aedes trans!




REFERÊNCIAS


Deutsche Welle (DW), disponível em
http://www.dw.de/pesquisadores-questionam-mosquitos-transg%C3%AAnicos-no-combate-%C3%A0-dengue/a-17256054, acesso em 01 de maio de 2015.

COSTA-DA-SILVA, André L; MACIEL, Ceres; MOREIRA, Luciano A. Mosquitos Transgênicos para controle de doenças tropicais. INTCEM - 2012.

Governo do Rio de Janeiro. Disponível em http://www.saude.rj.gov.br/programas-e-acoes/84-acoes/130-rio-contra-a-dengue-a-historia-da-dengue-no-mundo.html. Acesso em 01 de maio de 2015.

G1 Piracicaba. Disponível em http://g1.globo.com/sp/piracicaba-regiao/noticia/2015/04/piracicaba-comeca-liberar-1-milhao-de-aedes-transgenico-por-semana.html, acesso em 01 de maio de 2015.



 

 




6 comentários:

  1. GRUPO L

    Muito interessante esse post sobre a liberação do Aedes Aegypti transgênico, que não pica e nem transmite a dengue, para reduzir o número de transmissores da doença. Cabe salientar que o Ministério Público (MP) liberou a soltura de Aedes Aegypti geneticamente modificados, mas determinou que a Prefeitura e a empresa criadora do "Aedes do Bem" - nome do projeto -sigam regras. Uma delas é que não poderá ser proibido uso de inseticidas e das nebulizações que matarão o inseto transgênico.

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  2. Gostei muito da postagem...
    Vi que no Mato Grosso está começando a se investir em pesquisas desse gênero. Pesquisadores estão fazendo estudos baseados em pesquisas britânicas em que fizeram galinhas com alterações genéticas botar ovos contendo substâncias como proteínas, que podem ajudar a combater o câncer. Esses estudos podem ser desenvolvidos com o arroz, o milho, a soja ou qualquer outro alimento cultivado em solo mato-grossense.
    Atualmente, resultados importantes já foram conseguidos em pesquisas americanas com alimentos geneticamente modificados ou transgênicos como são conhecidos. Um deles é o uso de tomates no combate ao câncer. O tomate geneticamente modificado foi desenvolvido pela Universidade de Purdue e pelo Departamento de Serviço de Pesquisa Agrícola dos Estados Unidos. Com um nível três vezes mais alto do antioxidante licopeno, o consumo desse tipo de tomate pode reduzir o risco de câncer de próstata e de mama, além de prevenir doenças cardíacas.

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  3. Grupo M
    Apesar da boa abordagem da postagem, algumas informações não ficaram tão claras acerca da Oxitec, quem é essa empresa? A Oxitec é uma empresa pioneira no controle de insetos transmissores de doenças e causadores de danos nas culturas agrícolas que usa a biotecnologia para combater essas pragas de forma segura e sustentável. Ela desenvolve também insetos geneticamente modificados, incluindo aqueles para combater a Ceratitis capitata (a mosca das frutas, considerada a maior praga da citricultura), a Plutella xylostella(traça das crucíferas, que ataca plantas como brócolis, repolho e alface) e a Pectinophora gossypiella(uma das pragas mais destrutivas do algodão chamada popularmente de lagarta rosa). Dando ênfase, aos valores econômicos, a Oxitec informou que já investiu cerca de R$ 100 milhões em pesquisas e infraestrutura da empresa para viabilizar a produção do mosquito "do bem". A Prefeitura de Piracicaba contratou o projeto por R$ 150 mil e diz que gasta ao menos R$ 6 milhões por ano com outras ações de combate à doença. Dessa forma, percebe-se, que a ideia principal da empresa, é, teoricamente, uma ótima forma de controle desses insetos de imediato, porém, é muito provável que a liberação desses transgênicos na natureza provoque desequilíbrio na cadeia alimentar, e até, que ocorra uma mutação e a nova subespécie se torne um vetor mais resistente ao combate. Como já relatado nas postagens anteriores, transgenia é um assunto muito polêmico e complicado de se prever as consequências, cabendo à espera dos resultados desses experimentos. Esperando novas postagens, para se aprofundar cada vez mais no mundo transgenia e da bioquímica.

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  4. Parabéns pelo post e gostaria de adicionar mais uma informação contra o combate do vírus da dengue. Uma outra arma que está em fase final de elaboração é a vacina contra o vírus o que pode ser uma boa uma vez que não atinge a teia ecológica, como propõe a empresa Oxitec, com a liberação de mosquitos transgênicos. Além disso, no Ceará, pesquisadores da Universidade Estadual do Ceará, utilizando o popular feijão de corda, introduziram uma proteína que é capaz de desenvolver anticorpos nos organismos que ingerirem esse alimento nutritivo!!! Eita cearenses arretados....
    Mais informações é só consultar os sites abaixo:
    http://www.fiocruz.br/rededengue/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=219&sid=3
    http://www.uece.br/uece/index.php/noticias/1501-1o-vacina-de-origem-vegetal-no-mundo-combate-virus-da-dengue

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  5. Postagem muito interessante e importante! Sempre é bom lembrarmos que os transgênicos não estão presentes somente nos alimentos. Além dos muitos exemplos já citados pelos comentários, a mesma empresa que vocês citaram na postagem, Oxitec, recebeu, no mês de agosto de 2014, aprovação das autoridades brasileiras para comercializar no país uma mosca transgênica que, segundo a empresa, é capaz de combater o mosquito transmissor da dengue! Ah, importante lembrar que esses mosquitos soltos em Piracicaba ainda não tiveram sua comercialização aprovada pela Anvisa. E, como mais exemplos de animais transgênicos, temos um Frango que foi modificado para não transmitir a gripe aviária e uma espécie de salmão que contém genes de outras espécies que fazem com que o peixe se desenvolva mais rápido ao longo de todo o ano. Bom, as polêmicas continuam... Nenhuma pesquisa comprova que esses transgênicos fazem somente o bem, ou se eles causam ma para a nossa saúde também...
    No aguardo de mais postagens (:

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  6. Grupo D
    Postagem muito bem elaborada, parabéns!! Esse é com certeza um assunto polêmico. Muitos afirmam que são várias as vantagens e que não haverão consequências, enquanto que outros discordam totalmente. Vemos muitas informações na mídia afirmando principalmente que há somente vantagens a se comemorar. Um movimento de protesto realizado em Juazeiro-BA, que contou com ex-integrantes da Comissão Técnica Nacional de Biosegurança (CTNBio), que autorizou a produção comercial do Aedes Transgênico, mostra como algumas pessoas reagem negativamente ao caso. De acordo com Gabriel Fernandes, assessor técnico da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia e coordenador da Campanha Permanente Por um Brasil Livre de Transgênicos, o problema é que, primeiro, tudo parte da lógica que eliminar o mosquito é o mesmo que eliminar a doença e, segundo, que ao liberar os machos podem ser liberadas também espécies fêmeas, pois o controle não é 100%, essas estariam livres para se reproduzir e não há como saber o risco de mutações genéticas e o desequilíbrio ambiental que isso pode gerar.

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